á alguns anos, quando começamos a discutir comportamento nas redes sociais, a preocupação principal era relativamente simples: pensar antes de publicar uma fotografia, separar a vida pessoal da profissional e lembrar que um recrutador poderia encontrar informações sobre um candidato na internet. Hoje, essa discussão se tornou muito mais complexa, porque a vida profissional passou a acontecer também no WhatsApp, no LinkedIn, no Instagram, nas videoconferências, nos grupos de trabalho e nas inúmeras plataformas pelas quais nos comunicamos ao longo do dia.
O que antes chamávamos apenas de comportamento online tornou-se parte efetiva da nossa imagem. Presença digital não é somente ter um bom perfil no LinkedIn ou publicar conteúdos adequados, mas também a maneira como nos comunicamos quando não estamos presencialmente diante do outro. Está no horário em que enviamos uma mensagem, na urgência que atribuímos a assuntos que poderiam esperar, na quantidade de mensagens que mandamos para resolver algo que caberia em uma só, na maneira como participamos de um grupo profissional, no cuidado ao compartilhar informações e até na expectativa de que o outro esteja permanentemente disponível.
A tecnologia facilitou extraordinariamente a comunicação, mas também apagou muitas das fronteiras que antes eram bastante claras. O escritório terminou, mas o celular continuou conosco, e a possibilidade de falar com alguém a qualquer momento criou, em muitos ambientes, a impressão equivocada de que também temos o direito de obter uma resposta a qualquer momento.
Esse é um dos pontos mais importantes da comunicação profissional contemporânea: disponibilidade não pode ser confundida com acesso irrestrito ao tempo do outro. Respeitar horários, compreender prioridades e saber diferenciar uma urgência real de uma urgência criada também são formas de educação, discernimento e inteligência social.
Existe ainda outro aspecto importante dessa presença digital: aquilo que publicamos. Durante muito tempo houve uma tentativa de separar rigidamente vida pessoal e vida profissional, mas hoje essa fronteira é muito mais porosa. Isso não significa transformar redes pessoais em currículos ou viver preocupado com cada fotografia publicada, mas compreender que, ao colocar alguma coisa em um espaço público, perdemos parte do controle sobre quem terá acesso a ela, em que contexto será vista e que interpretação poderá receber.
Quanto maior a exposição ou a responsabilidade profissional, maior deve ser essa consciência. Um executivo, um empresário ou qualquer profissional que represente uma organização não deixa completamente de representar sua reputação quando entra em uma rede social. Isso não significa abrir mão da personalidade, da vida privada ou das próprias opiniões, mas entender que aquilo que fazemos e comunicamos também participa da percepção que os outros constroem sobre nós.
O mesmo vale para os grupos profissionais. Piadas, correntes, vídeos, comentários inadequados, discussões intermináveis ou mensagens sem qualquer relação com o trabalho podem parecer insignificantes isoladamente, mas comportamentos repetidos constroem percepção, e percepção, ao longo do tempo, constrói reputação.
As reuniões virtuais também trouxeram novos formatos, mas não eliminaram os antigos códigos de consideração pelo outro. Pontualidade, preparação, atenção, postura, capacidade de ouvir e respeito pelo tempo continuam sendo sinais de profissionalismo, mesmo quando uma conversa acontece a milhares de quilômetros de distância.
Talvez essa seja uma das grandes mudanças dos últimos anos: não existe mais uma imagem presencial e outra digital. Existe uma única imagem, percebida em diferentes ambientes. A roupa que escolhemos para uma reunião comunica, assim como a maneira como falamos, a forma como nos comportamos, o que publicamos e até a mensagem enviada fora de hora.
As plataformas mudam, os aplicativos desaparecem, novos surgem e os códigos precisam ser constantemente atualizados, mas algumas coisas permanecem surpreendentemente atuais: respeito, discernimento, educação, bom senso e consideração pelo tempo e pelo espaço do outro.
No mundo hiperconectado, talvez uma das formas mais contemporâneas de elegância seja justamente saber quando se comunicar, como se comunicar e quando simplesmente não comunicar.
E a sua presença digital: ela fortalece a imagem profissional que você construiu ou conta uma história diferente?
